Canetas para obesidade fazem perder músculo? O que se sabe
Parte do peso corporal reduzido com tirzepatida é massa magra. O que os estudos mediram, por que o músculo pesa na longevidade e o que ajudou a preservá-lo nos ensaios.

Sim: parte do peso corporal reduzido com remédios como a tirzepatida é massa magra, e não só gordura. Mas isso acontece com quase qualquer redução de peso, inclusive com dieta e exercício. A pergunta útil não é se algum músculo vai embora, e sim quanto, em quem e o que dá para fazer para preservá-lo. A resposta importa mais do que parece, porque o músculo virou um dos indicadores mais sólidos de como vamos envelhecer.
Por que o músculo virou assunto de longevidade?
Durante anos, músculo foi associado à estética ou ao esporte. Hoje a medicina o trata como um órgão. Em 2019, um consenso europeu publicado na revista Age and Ageing redefiniu a sarcopenia como uma doença do músculo, uma “falência muscular” que se acumula ao longo da vida, e colocou a força baixa como o sinal principal, à frente da quantidade de massa.
A força diz muito. O estudo PURE, publicado na The Lancet em 2015, mediu a força de preensão da mão de cerca de 140 mil pessoas em 17 países. Nessa população, cada 5 kg a menos de força estiveram associados a um risco de morte por qualquer causa 16 % maior, e a força previu a mortalidade melhor do que a pressão arterial sistólica. É uma associação, não prova de causa e efeito, mas explica por que tantos pesquisadores falam do músculo como uma reserva para a velhice.
Quanto músculo se perde com a tirzepatida?
O dado mais citado vem de um subestudo do SURMOUNT-1, publicado em 2025 na revista Diabetes, Obesity and Metabolism. Cento e sessenta participantes fizeram densitometria corporal (DXA) no início e após 72 semanas. No grupo que recebeu tirzepatida, cerca de um quarto do peso reduzido foi massa magra e três quartos foram gordura. O curioso é que a proporção foi praticamente a mesma no grupo placebo, que reduziu menos peso só com a orientação de dieta e atividade física que todos receberam. São médias de grupo e não preveem o que vai acontecer com uma pessoa.
Vale ler o dado com cuidado: a massa magra medida pela DXA não é só músculo, porque inclui água, órgãos e tecido conjuntivo. O que pesa na saúde é se a força e a função se mantêm, justamente o que o consenso de sarcopenia coloca em primeiro lugar.
Quem precisa prestar mais atenção?
O risco pesa mais para quem já parte com pouca reserva, como pessoas mais velhas ou quem já tem pouca força. Um ensaio publicado no New England Journal of Medicine em 2017 partiu justamente dessa preocupação: em idosos com obesidade, reduzir peso poderia acelerar a perda de músculo e de osso própria da idade. Nessas pessoas, cuidar da força durante qualquer tratamento é tão importante quanto o número da balança.
O que os estudos mostraram para preservar o músculo?
Nesse mesmo ensaio de 2017, 160 idosos com obesidade seguiram um programa de controle de peso com exercício aeróbico, com musculação ou com os dois; um quarto grupo, de controle, não fez nenhum programa. Os grupos com exercício reduziram o peso de forma parecida, mas os que fizeram musculação, sozinha ou combinada, perderam menos massa magra e menos densidade óssea do que os que fizeram só aeróbico. A combinação foi a que mais melhorou a capacidade física.
A alimentação também conta, com proteína suficiente dentro de um plano equilibrado. Quanto e como depende de cada pessoa: quem define o plano de exercício e de alimentação, e quem acompanha qualquer tratamento, é o profissional de saúde.
Vêm aí remédios para proteger o músculo?
É uma das linhas de pesquisa mais ativas. Um ensaio de fase 2 publicado na Nature Medicine em 2026 testou o bimagrumabe, um anticorpo pensado para reduzir gordura e favorecer o crescimento muscular, sozinho e combinado com semaglutida, em 507 adultos com obesidade. A combinação foi a que mais reduziu o peso corporal, e entre os eventos adversos do bimagrumabe apareceram espasmos musculares, diarreia e acne. Ainda é pesquisa: faltam estudos maiores e mais longos antes de saber que lugar ele pode ocupar.
Para entender como essas moléculas são pesquisadas, veja como a evidência é construída, fase por fase. Sobre o preço da tirzepatida e quem consegue pagá-la, leia o que a pesquisa provou e por que ela custa tanto; e, sobre hábitos que acompanham qualquer mudança de apetite, comer, se hidratar, se mover e descansar.
Conteúdo informativo; não substitui a orientação de um profissional de saúde.
Fontes
- Sarcopenia: consenso europeu revisado sobre definição e diagnóstico (Age and Ageing, 2019)
- Estudo PURE: valor prognóstico da força de preensão (The Lancet, 2015)
- Composição corporal com tirzepatida no estudo SURMOUNT-1 (Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025)
- SURMOUNT-1: tirzepatida na obesidade (New England Journal of Medicine, 2022)
- Exercício aeróbico, de força ou ambos em idosos com obesidade que reduzem peso (New England Journal of Medicine, 2017)
- Bimagrumabe com semaglutida na obesidade: ensaio de fase 2 (Nature Medicine, 2026)



