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Tirzepatida: o que a pesquisa provou e por que custa tanto

A tirzepatida teve resultados fortes em estudos de fase 3, mas nos EUA custa mais de US$ 1.000 por mês. Os números públicos mostram que esse preço é uma escolha, não um custo.

Imagem ilustrativa

A tirzepatida, que a Eli Lilly vende como Mounjaro e Zepbound, é um dos remédios mais bem estudados da última década: em ensaios de fase 3 com milhares de participantes, superou o placebo e também a semaglutida. O problema não está na ciência; está no preço. Nos Estados Unidos, o preço de tabela passa de US$ 1.000 por mês, enquanto estudos independentes estimam que remédios da mesma família podem ser fabricados por poucos dólares. Neste texto, separamos o que é fato, com fonte, do que é a nossa opinião.

O que é a tirzepatida e como ela age?

É um peptídeo sintético construído sobre a sequência do GIP, hormônio que o intestino libera depois das refeições, com uma cadeia de ácido graxo que prolonga sua permanência no organismo. Ela ativa dois receptores, o do GIP e o do GLP‑1, e por isso interfere na saciedade, na velocidade com que o estômago esvazia e na liberação de insulina conforme a glicose disponível. Chegou primeiro ao mercado para diabetes tipo 2, com o nome Mounjaro; no fim de 2023, a mesma molécula ganhou o nome Zepbound para obesidade. É um só princípio ativo com duas marcas.

O que os estudos SURPASS e SURMOUNT mostraram?

A Lilly dividiu a pesquisa em dois programas. O SURPASS avaliou a molécula em pessoas com diabetes tipo 2: em um dos estudos centrais, publicado no New England Journal of Medicine em 2021, a tirzepatida reduziu a hemoglobina glicada mais do que a semaglutida, a referência da época. O SURMOUNT tratou de obesidade sem diabetes. No SURMOUNT-1, com 2.539 adultos acompanhados por 72 semanas, a redução média do peso corporal nos grupos tratados ficou entre 15 % e 21 %, contra cerca de 3 % no grupo placebo. Em 2025, o SURMOUNT-5 colocou tirzepatida e semaglutida frente a frente em obesidade, e a média do grupo da tirzepatida foi maior.

Dois avisos honestos. Primeiro: são médias de grupos, em populações específicas, e não preveem o resultado de uma pessoa. Segundo: todos esses estudos foram financiados pela própria fabricante. Isso não os invalida, porque passaram pela revisão de outros cientistas e saíram em revistas de primeira linha, mas é um dado que o leitor merece conhecer.

Há ainda um detalhe que pesa no bolso. No SURMOUNT-4, quem trocou a tirzepatida pelo placebo recuperou boa parte do peso corporal que tinha reduzido. Em outras palavras, para a maioria das pessoas o tratamento tende a ser contínuo, e um tratamento contínuo com preço alto vira uma assinatura para a vida inteira.

Quanto custam o Mounjaro e o Zepbound?

Nos Estados Unidos, o preço de tabela do Mounjaro gira em torno de US$ 1.112 por mês, e o do Zepbound chega a US$ 1.086 por 28 dias, segundo a GoodRx em janeiro de 2026. Em doze meses, são mais de US$ 13.000. Para quem compra sem seguro direto da fabricante, a Lilly vende desde dezembro de 2025 frascos de Zepbound por US$ 299 a US$ 449 por mês. O mesmo produto, em outro formato e por outro canal, custa menos da metade: o preço de tabela não reflete o custo de fabricar.

No Brasil, quando o Mounjaro chegou, em 2025, o preço máximo ao consumidor da caixa para um mês de tratamento foi fixado em R$ 3.627,82, segundo o Conselho Federal de Farmácia. O salário mínimo daquele ano era de R$ 1.518: no teto, um mês de remédio custava mais que dois salários mínimos. Nos EUA, uma pesquisa da KFF de 2024 mostrou que mais da metade dos adultos que usaram remédios dessa classe tiveram dificuldade para pagar, inclusive quem tinha seguro.

Agora olhe para a Índia. Quando a Lilly lançou lá o mesmo princípio ativo, em março de 2025, a Bloomberg calculou que a apresentação inicial custava perto de catorze vezes menos que nos EUA. Dá para argumentar que cada país tem renda e sistema de saúde diferentes, e isso é verdade em parte. Mas confirma o ponto central: o preço não é ditado pelo custo de fabricar; é decidido país a país, conforme o quanto cada mercado aguenta pagar.

Quanto custa fabricar um remédio desses?

Não encontramos estimativa publicada específica para a tirzepatida, mas há para a semaglutida, a molécula concorrente da mesma família. Uma análise publicada no JAMA Network Open em 2024, baseada em dados do comércio internacional do princípio ativo, estimou que a semaglutida injetável poderia ser vendida com lucro por algo entre US$ 0,89 e US$ 4,73 por mês. Outra, publicada em 2026 na revista Obesity, calculou que a versão genérica injetável pode custar de US$ 28 a US$ 140 por pessoa por ano, com a caneta aplicadora respondendo por boa parte da conta.

A tirzepatida usa mais princípio ativo por mês do que a semaglutida, então o custo dela tende a ficar acima dessas estimativas. Há, porém, um dado da própria Lilly: no relatório anual de 2025 entregue à SEC, a margem bruta da empresa foi de 83 %. De cada US$ 100 vendidos, cerca de US$ 17 foram custo dos produtos. O número vale para a empresa inteira, não só para a tirzepatida, mas mostra a distância entre fabricar e cobrar.

Quando vence a patente da tirzepatida?

Segundo o mesmo relatório anual, a patente do composto vence em 2036 nos EUA, em 2037 nos principais países europeus e em 2040 no Japão. O documento também reconhece que a empresa pode manter a exclusividade além dessas datas com patentes posteriores sobre formulações, usos ou processos de fabricação. Enquanto isso, nenhum outro fabricante pode vender a molécula nesses mercados sem autorização da Lilly.

O que acontece quando a exclusividade acaba já tem exemplo recente. Na Índia, a patente da semaglutida venceu em março de 2026: logo surgiram versões genéricas, algumas abaixo de 2.000 rúpias por mês, e a fabricante original cortou os próprios preços em até 48 %, segundo a Business Today. A concorrência fez em semanas o que anos de discurso sobre acesso não fizeram.

Nossa opinião: um preço que decide quem pode se tratar

Em 2025, Mounjaro e Zepbound somaram cerca de US$ 36,5 bilhões em vendas, segundo o relatório anual da Lilly, e já no terceiro trimestre daquele ano as vendas acumuladas da tirzepatida tinham passado as do Keytruda, até então o remédio mais vendido do mundo, segundo a STAT. Desenvolver um medicamento novo custa caro: uma estimativa publicada no JAMA em 2020 calculou a mediana em cerca de US$ 1 bilhão, já contando os fracassos pelo caminho. Mesmo que a tirzepatida tivesse custado dez vezes isso, um único ano de vendas pagaria a conta mais de três vezes.

Por isso, na nossa leitura, o preço atual não remunera a inovação: ele maximiza o lucro enquanto a patente durar. A patente existe para recompensar quem inventa, e essa recompensa já veio. Usá-la para sustentar, por mais de uma década, um preço que só uma minoria consegue pagar transforma um avanço científico em produto de luxo. Um remédio com resultados sólidos nos estudos, mas que só rico pode comprar, resolve o problema de poucos.

Não estamos dizendo que alguém violou a lei. Estamos dizendo que é uma decisão comercial, e que dá para decidir diferente. A prova está nos próprios números: quando houve pressão, o preço caiu.

Para entender a próxima geração de moléculas, como a retatrutida, que age em três receptores, leia como funciona um agonista triplo e como ler um estudo com placebo. A VLS produz uma caneta aplicadora de retatrutida; os dados técnicos estão na ficha do produto.

Conteúdo informativo; não substitui a orientação de um profissional de saúde.

Fontes

  1. SURPASS-2: tirzepatida versus semaglutida no diabetes tipo 2 (New England Journal of Medicine, 2021)
  2. SURMOUNT-1: tirzepatida na obesidade, 72 semanas (New England Journal of Medicine, 2022)
  3. SURMOUNT-4: o que acontece ao interromper a tirzepatida (JAMA, 2024)
  4. SURMOUNT-5: tirzepatida versus semaglutida na obesidade (New England Journal of Medicine, 2025)
  5. Bula oficial do Mounjaro nos EUA (DailyMed, Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA)
  6. Reuters: chegada do Zepbound ao mercado dos EUA (novembro de 2023)
  7. GoodRx: preço do Mounjaro sem seguro (2026)
  8. GoodRx: preço do Zepbound (2026)
  9. BioSpace: Lilly reduz o preço dos frascos de Zepbound na venda direta (dezembro de 2025)
  10. Conselho Federal de Farmácia: data e preço do Mounjaro no Brasil (março de 2025)
  11. Salário mínimo de 2025 e de 2026 (Folhapress)
  12. KFF: pesquisa sobre uso e custo dos remédios GLP‑1 (maio de 2024)
  13. Bloomberg (no Gulf News): lançamento do Mounjaro na Índia (março de 2025)
  14. Preços sustentáveis baseados no custo dos remédios para diabetes (JAMA Network Open, 2024)
  15. Quanto o preço da semaglutida poderia cair (Obesity, 2026)
  16. Eli Lilly: relatório anual 10-K de 2025 entregue à SEC (fevereiro de 2026)
  17. Business Today: genéricos de semaglutida na Índia e corte de preços (março de 2026)
  18. STAT: a tirzepatida passa o Keytruda em vendas (outubro de 2025)
  19. Investimento em pesquisa e desenvolvimento para lançar um medicamento novo (JAMA, 2020)

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